domingo, 26 de fevereiro de 2017

Carta de despedida

Mais uma vez.
Mais uma vez me despeço de sonhos.
Me despeço de cheiros. Me despeço de pintas e de caracóis.
Mais uma vez me vejo em um quarto escuro sem esperança.
Mais uma vez me encontro com Maysa Matarazzo e seu francês perfeito e frio.
Mais uma vez entendo Adele, entendo Frida.
Mais uma vez eu abaixo a guarda e sou acertada com um Golpe no baço.
Mais uma vez tenho que aprender a catar os cacos, vestir meu uniforme de construção, pegar meu martelo e bater freneticamente no prego da consciência.
Mais uma vez brigo com a vida por nunca me poupar de nada.
Mais uma vez sou despedaçada.
Mais uma vez eu me culpo por tudo.
Mais uma vez sinto saudade do que eu não vivi.
Mais uma vez minha garganta seca e a insonia me devora em noites de pensamentos descontrolados.
Mais uma vez perco as rédias dos meus sentimentos.
Mais uma vez me desgraço por não seguir minha intuição.
Mais uma vez vejo minha chama de vida se apagar.
Mais uma vez escrevo como um escárnio aquilo que gostaria de dizer, de frente para um computador estático, vejo minha vida se escapar por cada letra escrita.
Mais uma vez me pego fumando um cigarro aterrorizada pela solidão.
Mais uma vez minhas mãos tremem a cada hora de silencio.
Mais uma vez encaro o desprezo de frente.
Mais uma vez ele debocha da minha ingenuidade.
Mais uma vez sou a ultima a sair do palco, com o sentimento de ter feito minha pior peça.
Mais uma vez assopro a vela para me deixar no escuro.
Mais uma vez me pergunto por que ainda tento.
Mais uma vez sinto inveja de quem consegue ser feliz.
Mais uma vez eu tento entender o senso destrutivo que guia minhas escolhas.
Mais uma vez sou a moça que mora sozinha, que devora o silencio.
Mais uma vez sou tocada, usada, sou ex.
Mais uma vez tenho historias tristes que se fazem engraçada em mesa de bar.
Mais uma vez abafo minha risada com falta de oxigenio em minhas narinas.
Mais uma vez serei forte.
Mais uma vez não contabilizarei danos.
Mais uma vez inventarei desculpas plausíveis pra justificar o injustificável.
Mais uma vez chorei.


  

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