quinta-feira, 1 de maio de 2014

Eu mereço ser traída

Foi isso que eu escutei. 
A lamina da solidão percorre meu corpo fazendo aquele barulho seco como unha num quadro negro. 
A lamina vem de vagar e aponta no meu queixo me desafiando. 
Eu olho fixa pra ela sem me exitar.
Eu logo respondo : - Não tenho mais historias a te contar!
Ela continua firme, dá uma esbarrada provocativa em meu nariz e tira um filete de sangue. 
Eu viro e rapidamente volto a encará-la com os olhos. Olhos negros.
Eu olho fixa pro metal, e digo : Você e eu ?! juntas! Nós quase tivemos tudo!
A lamina passa vagorozamente nas minhas maçãs, agora, virada do lado mais grosso, e faz um carinho no meu rosto, carinho que me acolhe, eu fecho os olhos e as lagrimas caem.
Eu pergunto: Por que você fica ? Pego com cuidado a lamina e coloco no meu pescoço e o ofereço a ela meu ponto vital, minha artéria. Acabe com isso.
Mas ela caminha de uma lado a outro no meu pescoço parece calcular a dor maior. Agora ela treme.
Meus batimentos cardíacos nem se modificam.
Ela desce lentamente fazendo uma reta perfeita do meu pescoço ate minha blusa e rasga os dois botões. 
Levanta o pano cortado com a ponta, e num golpe só, crava meu peito profundamente e secamente sem piedade. 
Eu olho meu peito que não tem uma gota de sangue, seguro a lamina e tiro. 
Como em uma dança, coloco-á na altura dos meus olhos, apenas olho, parada o ar é tão espesso e opaco. Todos tomam lados diferentes.
A lamina se surpreende, percebe não ter sido tão fatal.
Eu? Eu viro as costas... A lamina corta, é poderosa, mas sem um corpo ela é só uma lâmina. 
Não mereço ser traída e fim!



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